Pelos caminhos de Santiago (Relato de dois dias inesquecíveis e fantásticos)

A absorção do saber para quem quer avidamente perceber a nossa história, apresenta diversos canais de recepção.Hoje, apreender depende mais da técnica de manuseamento das redes que nos invadem de tudo, do que de qualquer outro canal.

E, muitas das vezes, para percebermos algo, partimos para o mundo de catadupa de informação. A possibilidade de ser diferente nesta onda arrebatadora e profusa de conhecimento, significa um regresso ao passado. E esse retorno significa algo que pouco se pratica: saber contar e saber ouvir. É um privilégio dos deuses e dos santos, existirem ainda várias pessoas que nos agraciam com esse conhecimento, senão mesmo com esse dom.

Joel Cleto é esse alguém que personifica o dom de tratar por tu a história, de ter caído nesse poço inimaginável do conhecimento do que fomos, e de ter na expressão a potência insuperável de saber transmitir.

A aposta do Grupo Desportivo era Santiago, mais um Santo, entre tantos, que inata e geograficamente reconduzimos a Compostela, como termo da meta de um peregrino, nos vários caminhos e percursos que se lhe apresentam. Não me cabe relatar o que aprendemos, pois isso é foro de cada um, mas tão só dar cor ao que sentimos.

E no percurso português fomos de São Pedro de Rates a Ponte de Lima, e de Padrón a Santiago de Compostela, já em Espanha. Esse o primeiro dia repleto de profuso saber, com toques de gastronomia da novelística Pedra Furada às opíparas papas de sarrabulho da Encanada. Um luxo na arte de todos os sentidos… E nesse mesmo primeiro dia, percebemos que um fálico pináculo podia produzir um assombroso fantasma. O transpor de dois dias correspondeu a um debate titânico entre alguém que lava o céu, de seu nome São Pedro, e de outro alguém, também santo e apóstolo, Santiago, que tão só se queria dar a conhecer através do seu perito mais esperto, o tal soberbo Cleto.

Do feriado dos que se foram, passámos ao dia de finados, e infindáveis estavam as obras da esplendorosa Catedral, que me pareceu prima próxima daquela Santa Engrácia, de inacabadas obras, que se bem portuguesas, são tão próprias desse nosso espírito latino que abarca o país vizinho. A simbologia foi mais uma vez relatada e o Santo devotamente abraçado, num local de culto peregrino penoso mas garboso de tanta história, envolta no camarote de dois marretas preciosos, os auxiliares Teodósio e Atanásio.

Daqui a Pontevedra, à Senhora do Refúgio, divina virgem peregrina, com termo em Barcelos, onde a possível cabidela do enforcamento de alguém, deu azo ao galo emproado, e à lenda que muitos desconheciam. E repletos de saber sobre o santo, onde nada se perdeu, lá fomos à amiga e singela Babette que tanto nos deu e se comeu.

Assim se acabou esta magnífica excursão, sem que uma enorme e boa fila na A28, nos proporcionasse mais uns inolvidáveis conhecimentos, fora da ordem dia, sobre Matosinhos e aquela extensa avenida que dali parte à estátua do leão e da águia, em plena Boavista da invicta cidade do Porto. Se a barriga vinha cheia, o bestunto abarrotava de saber, num convívio que se aliou a uma enorme boa disposição e a uma jovialidade risonha e galhofeira. Ficámos mais ricos e biologicamente mais jovens, talvez até moços, sem percebermos que a arte de organizar cabe a outra moço, de seu primeiro nome Manuela, a peregrina das viagens num detalhe de rigor e de enorme fulgor.

Sem mais, basta-me um enorme e maiúsculo OBRIGADO.”

 

Pedro Ribeiro e Silva | Diretor Jurídico da MAPFRE Portugal